terça-feira, 30 de maio de 2017

Carta aberta aos professores que deveriam mudar de profissão - um desabafo.

Mural feito por alunos Escola Estadual"Cônego Mauro de Farias" Mariana-MG no projeto "Dandaras: relações étnico-raciais, de gênero e sexualidade na escola pública" desenvolvido por mim em 2016.


         A escola deveria ser um espaço seguro onde entramos em contato com o mundo e seus conhecimentos para desenvolver o pensamento crítico, a coletividade, potencialidades intelectuais, físicas e emocionais – tudo isso em noma da promoção da cidadania e da cultura de paz. A escola deveria...
O que muitas vezes acontece é que certos sujeitos e identidades que foram historicamente perseguidos, escravizados, mortos e violentados das mais diversas formas, ainda convivem com o ranço de momentos que criaram contingências de desigualdade e injustiças sociais.
Se entendermos a escola como o binômio “escola/comunidade”, é fácil percebermos que os ambientes de ensino formal, através de seus sujeitos, muitas das vezes reproduzirão dentro de sua cultura escolar preconceitos e sistemas de classificação (e desclassificação) de sujeitos. É como se a escola, por meio de seu cotidiano, levasse à diante taxas de desigualdade e endossasse violência. Muitas das vezes, tornando o próprio ato de educar um assédio moral.
Existem nessas problemáticas duas questões básicas: o direito à diferença e os direitos humanos. Na nossa LDB (Lei de Diretrizes e Base) temos os volumes “Ética” e “Temas transversais”, ondem versam sobre as relações étnico-raciais, de gênero e sexualidade indicando a necessidade da promoção de uma cultura de respeito e cidadania dos sujeitos que ainda sofrem com a negação de seus direitos básicos enquanto seres humanos: indígenas, negros, quilombolas, mulheres e LGBT’s (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Nossa lei versa sobre esses assuntos e nossa constituição nos garante a igualdade perante as leis e instituições sociais: sistema de saúde, educação, alimentação, moradia, e etc. Mas o que vemos é uma dificuldade desses conhecimentos adentrarem o cotidiano escolar. O principal motivo, já citado por diversos pesquisadores e estudiosos da educação como o doutor Marco Antônio Torres em seu livro “Direitos e promoção da cidadania lGBT: o desafio da laicidade”, seria a formação dos professores. Embora quase todas as universidades federais, recentemente, já terem criado núcleos de estudos e ementas de psicologia da educação que possuem os conteúdos de direitos humanos, relações-étnicos raciais de gênero e sexualidade em alguns de seus departamentos de educação ou ciências sociais e aplicas, direito e etc; ainda temos um cenário de má formação de educadores atuantes no ensino formal de base e, até mesmo, no ensino superior.
Essa má formação, aliada ao desentendimento de seu lugar como docente e não respeito à laicidade das instituições públicas, cria um cenário de violação desses conteúdos e sujeitos. O que acarreta violências verbais/psicológicas e físicas - que juntas, endossam e criam índices de alta evasão escolar. Um desses tristes dados foi o lançado pelo MEC em 2010, ondem constataram além da grande evasão escolar, um alto número de suicídios de jovens LGBT por causa do bullying. (Pra mais informações)
Levantadas essas informações, entendido que ser professor é uma profissão formal na qual deve-se corresponder à leis e diretrizes que guiam nossa prática educacional,  não podemos admitir que crenças pessoais adentrem nosso fazer docente  gerando sofrimentos e endossando violências. Afinal, achismos e moralismos não deveriam fazer parte dos conhecimentos científicos.

Temos que entender que a escola é um lugar da promoção da igualdade, do respeito, e de uma cultura de paz para todos– sem distinções. Então, caro professor, não faça da sua prática docente um ato de violação das identidades diversas. Não use seu "poder", ainda legitimador de verdades, para dizer pra um aluno que ele “está feio”, “errado” por demonstrar ser homossexual ou transexual, negro ou estar acima do peso com a desculpa de “estar salvando-o ou o ajudando”. Não desconte suas crenças religiosas e frustrações pessoais abalando psicologicamente quem quer que seja – muito menos quando se trata dos seus alunos. Você, como dito antes, deve ter conhecimentos amplos de psicologia da educação, sociologia, antropologia, relações étnico-raciais, ética, gênero e sexualidade e etc. Não se imponha limites atrás da desculpa de que“não recebi formação pra isso”. Como agente educacional do ensino formal, você deve buscar a atualização e aprimorar constantemente as evoluções dos estudos da educação e de sua área específica de atuação. Eu entendo que muitos de vocês não passaram pela licenciatura (o que é absolutamente problemático) e só possuem “notório saber” sobre sua área específica. Entretanto, por mais que não tenham recebido formação adequada, essa não pode ser uma desculpa pra endossar violências. Por fim, e digo isso pessoalmente, se não está preparado pra lidar, respeitar e promover valorização da diversidade e tratar as diferenças como oportunidades de conhecimento no âmbito escolar - e mais especificamente no âmbito da escola pública no Brasil – procure outra profissão.