Mural feito por alunos Escola Estadual"Cônego Mauro de Farias" Mariana-MG no projeto "Dandaras: relações étnico-raciais, de gênero e sexualidade na escola pública" desenvolvido por mim em 2016.
A escola deveria ser um espaço seguro onde
entramos em contato com o mundo e seus conhecimentos para desenvolver o pensamento
crítico, a coletividade, potencialidades intelectuais, físicas e emocionais –
tudo isso em noma da promoção da cidadania e da cultura de paz. A escola
deveria...
O que muitas vezes acontece é que certos sujeitos e identidades que foram
historicamente perseguidos, escravizados, mortos e violentados das mais
diversas formas, ainda convivem com o ranço de momentos que criaram
contingências de desigualdade e injustiças sociais.
Se
entendermos a escola como o binômio “escola/comunidade”, é fácil percebermos
que os ambientes de ensino formal, através de seus sujeitos, muitas das vezes
reproduzirão dentro de sua cultura escolar preconceitos e sistemas de
classificação (e desclassificação) de sujeitos. É como se a escola, por meio de
seu cotidiano, levasse à diante taxas de desigualdade e endossasse violência.
Muitas das vezes, tornando o próprio ato de educar um assédio moral.
Existem
nessas problemáticas duas questões básicas: o direito à diferença e os direitos
humanos. Na nossa LDB (Lei de Diretrizes e Base) temos os volumes “Ética” e
“Temas transversais”, ondem versam sobre as relações étnico-raciais, de gênero
e sexualidade indicando a necessidade da promoção de uma cultura de respeito e cidadania dos
sujeitos que ainda sofrem com a negação de seus direitos básicos enquanto seres
humanos: indígenas, negros, quilombolas, mulheres e LGBT’s (Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Nossa
lei versa sobre esses assuntos e nossa constituição nos garante a igualdade
perante as leis e instituições sociais: sistema de saúde, educação,
alimentação, moradia, e etc. Mas o que vemos é uma dificuldade desses
conhecimentos adentrarem o cotidiano escolar. O principal motivo, já citado por diversos
pesquisadores e estudiosos da educação como o doutor Marco Antônio Torres em
seu livro “Direitos e promoção da cidadania lGBT: o desafio da laicidade”,
seria a formação dos professores. Embora quase todas as universidades federais,
recentemente, já terem criado núcleos de estudos e ementas de psicologia da
educação que possuem os conteúdos de direitos humanos, relações-étnicos raciais
de gênero e sexualidade em alguns de seus departamentos de educação ou ciências sociais e
aplicas, direito e etc; ainda temos um cenário de má formação de educadores
atuantes no ensino formal de base e, até mesmo, no ensino superior.
Essa
má formação, aliada ao desentendimento de seu lugar como docente e não
respeito à laicidade das instituições públicas, cria um cenário de violação
desses conteúdos e sujeitos. O que acarreta violências verbais/psicológicas e físicas -
que juntas, endossam e criam índices de alta evasão escolar. Um desses tristes dados foi o lançado pelo MEC em 2010, ondem
constataram além da grande evasão escolar, um alto número de suicídios de
jovens LGBT por causa do bullying. (Pra mais informações)
Levantadas
essas informações, entendido que ser professor é uma profissão formal na qual deve-se
corresponder à leis e diretrizes que guiam nossa prática educacional, não podemos admitir que crenças pessoais
adentrem nosso fazer docente gerando
sofrimentos e endossando violências. Afinal, achismos e moralismos não deveriam fazer parte dos conhecimentos científicos.
Temos que entender que a escola é um lugar da promoção da igualdade, do respeito,
e de uma cultura de paz para todos– sem distinções. Então, caro professor, não
faça da sua prática docente um ato de violação das identidades diversas. Não
use seu "poder", ainda legitimador de verdades, para dizer pra um aluno que ele “está
feio”, “errado” por demonstrar ser homossexual ou transexual, negro ou estar
acima do peso com a desculpa de “estar salvando-o ou o ajudando”. Não desconte
suas crenças religiosas e frustrações pessoais abalando psicologicamente quem
quer que seja – muito menos quando se trata dos seus alunos. Você, como dito
antes, deve ter conhecimentos amplos de psicologia da educação, sociologia,
antropologia, relações étnico-raciais, ética, gênero e sexualidade e etc. Não
se imponha limites atrás da desculpa de que“não recebi formação pra isso”. Como
agente educacional do ensino formal, você deve buscar a atualização e aprimorar
constantemente as evoluções dos estudos da educação e de sua área específica de
atuação. Eu entendo que muitos de vocês não passaram pela licenciatura (o que é
absolutamente problemático) e só possuem “notório saber” sobre sua área
específica. Entretanto, por mais que não tenham recebido formação adequada,
essa não pode ser uma desculpa pra endossar violências. Por fim, e digo isso
pessoalmente, se não está preparado pra lidar, respeitar e promover valorização
da diversidade e tratar as diferenças como oportunidades de conhecimento no âmbito
escolar - e mais especificamente no âmbito da escola pública no Brasil –
procure outra profissão.
